terça-feira, 12 de maio de 2015

EM GRANJA, A IMAGEM DO DESCASO COM CISTERNAS ABANDONADAS



Foto: Lucianno Silva-Blog Acontece
Há quase três meses, grandes recipientes de plástico são elemento estranho na paisagem de Granja, na Região Norte do Estado. Aos milhares, as estruturas se acumulam pela cidade – sobre praças, terrenos baldios e até canteiros de obras. Pode soar estranho em meio aos quatro anos de seca no Ceará, mas trata-se de mais de 2,2 mil cisternas de polietileno, prontas para instalação desde fevereiro e até hoje “encostadas” pela Prefeitura.
 
Com a finalidade de captar água das chuvas para uso da população mais pobre, os equipamentos estão sem uso desde que chegaram ao Município. Com isso, já deixaram de acumular quase toda a quadra chuvosa de 2015 - período entre fevereiro e maio que concentra o maior índice de chuvas do ano.

Os equipamentos fazem parte de parceria entre a Prefeitura de Granja e o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) para a construção de 3.500 cisternas no Município. A reportagem tentou entrar em contato com o Dnocs para saber o valor total investido no projeto, mas não obteve resposta.

Segundo o Ministério da Integração Nacional, cada cisterna desse tipo custa - somando despesas de fabricação e instalação - R$ 5 mil, totalizando valor de R$ 17,5 milhões no caso de Granja.

Cadastramento

Segundo Francisco Gonzaga Souza, titular da Defesa Civil de Granja, pelo menos 2.223 cisternas estão no Município desde a terceira semana de fevereiro. Segundo ele, os equipamentos ainda não foram instalados pois estão em fase de cadastramento e georeferenciamento.
  
Francisco afirma, no entanto, que as primeiras unidades devem ser entregues a partir desta semana. Questionado sobre como será o abastecimento, diante do prognóstico negativo a partir de maio, ele diz que a captação ocorrerá por meio de carros-pipa.

A opção é contestada por especialistas, que classificam a água dos caminhões como “inadequada” e destinada apenas para emergências. “O ideal é que essa água, usada para beber e cozinhar, venha das chuvas. A água dos caminhões-pipa é de qualidade ruim, reservada para crises”, diz o presidente do Esplar e membro do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA), Marcus Oliveira.

Na página oficial do Ministério da Integração Nacional, também é destacado que esse tipo de cisterna é destinada a “captar águas pluviais”.

População

Em passagem por Granja, equipe do O POVO flagrou pelo menos seis pontos onde dezenas de cisternas estavam paradas. Entre os moradores, a situação chama a atenção. “Já está desse jeito faz tempo. Ninguém sabe quando vão tirar”, diz José de Oliveira, morador da sede de Granja.
  
Ele diz que tem enfrentado dificuldades com água - “como todo mundo” -, mas lamenta a situação sobretudo para distritos mais afastados. “É lá que a coisa deve estar bem difícil”, diz..


SAIBA MAIS

Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, Granja tem hoje Índice de Desenvolvimento de 0,559. É o segundo menor IDH do Estado do Ceará, na frente apenas do Município de Salitre.
 
Procurada pelo O POVO, a assessoria de imprensa da Controladoria Geral da União (CGU) em Brasília afirma que o órgão realiza inspeções para o uso adequado de recursos para programas de cisternas. Ela destaca, no entanto, que atuação da CGU nesses casos é mais “secundária”, sendo a fiscalização dever do órgão que firma a parceria. No caso das cisternas de Granja, o Dnocs.
 
A reportagem procurou o Dnocs para uma série de questionamentos. O órgão, no entanto, informou que apenas responderia as perguntas na próxima segunda-feira.
 
2,2 mil é o número de cisternas sem uso no Município de Granja
 
16 mil litros é a capacidade de armazenamento d’água de cada cisterna
 
R$ 5 mil é o custo de cada cisterna, envolvendo sua fabricação e instalação

Fonte: O POVO


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