domingo, 16 de fevereiro de 2014

POR QUE LER A BÍBLIA?!

Em 1999, não recordo a data exata, iniciei o projeto de ler a Bíblia na íntegra. Desde então, e sempre que possível, dedico uma parte da noite para a leitura, reflexão e anotações. Leio sem pressa, como quem espera ser agraciado com a dádiva da vida no dia seguinte. “A senhora insensatez é impulsiva, é ingênua e nada conhece” (Pr 9,13). Pensando bem, talvez seja insensato acreditar no dia seguinte, pois o tempo não nos pertence. Mas basta a certeza da finitude, não é necessário se atormentar com a iminência da morte. Ela tem o seu próprio tempo. “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer, e de tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar a planta” (Ecl 3, 1-2). Morrer é da natureza intrínseca dos seres vivos; é da condição humana e, nisto, somos iguais aos animais em geral. “Pois a sorte do homem e do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade” (Ecl 3, 19). Assim, talvez seja uma doce ilusão acreditar no amanhã, mas é agradável viver com a esperança da aurora que anuncia o recomeço do ciclo da vida.

Na juventude, eu li a Bíblia. Embora comungasse sinceramente a sua mensagem religiosa e espiritual, tratava-se de uma leitura orientada pelo viés político-religioso da Teologia da Libertação. A Bíblia era o nosso livro vermelho. Como escrevi em outro momento, a leitura da Bíblia dava-me respostas diante das injustiças sociais que sentia e via ao meu redor e reforçava a minha esperança utópica por uma sociedade justa e igualitária. Naquela época, porém, não a li na íntegra nem sequencialmente, mas sim trechos propensos à reflexão social e política – ainda que assimilados religiosamente. Mesmo quando, tempos atrás, retomei a leitura bíblica, não havia o propósito de ler integramente, mas apenas os Livros Poéticos e Sapienciais – que reli recentemente. No momento, iniciei a leitura dos Livros Proféticos.

Em respeito ao leitor, admito que não leio a Bíblia com o ardor religioso dos que consideram cada palavra inscrita como a revelação divina e conferem à mesma o caráter de obra sagrada. Pelo contrário, embora respeite os que creem, admire a fé e até me esforce para compreender, a minha perspectiva é racionalista. Compreender não significa aceitar. A cada palavra que leio, página e livro que concluo a leitura, mais me convenço do Credo quia absurdum. Ainda assim, continuo a ler e a refletir…

“Por que ler a Bíblia?”, questiona o superego. “A Bíblia deve ser lida com o coração, com o sentimento”. O meu superego nutre uma religiosidade profunda e, por mais que se esforce, não compreende a minha dedicação racional à leitura bíblica. Ainda que não pronuncie, julga-me sacrílego. No fundo, porém, alegra-se ao ver-me debruçado sobre o livro sagrado; nutre a esperança de que suas palavras me toquem, falem ao meu coração. Eu o compreendo! Meu superego deseja o melhor, acredita na conversão e ora por mim. Ele almeja a minha salvação. Sua crença me sensibiliza e entristece-me decepcioná-lo. Não obstante, por mais que admire sua fé, receio a leitura quase que fundamentalista que tenta me impingir. Ainda assim, procuro compreendê-lo.

Talvez esta seja a resposta ao questionamento. A leitura bíblica revela-se uma forma de conhecer melhor o meu superego, os meus semelhantes e a mim mesmo. Seja como for, ensina-me muito sobre a história, cultura, política, religião, etc. Mas, sobretudo, aprendo a melhor compreender a necessidade humana de acreditar e nutrir a esperança. De certa forma, a Bíblia revela-se uma generosa utopia, ainda que direcionada ao post-mortem.


 Bíblia de Jerusalém – Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2010. Todas as citações são desta versão.


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