sábado, 11 de outubro de 2014

COMO PERDER MILHARES DE AMIGOS NO FACEBOOK!

Quantos amigos conquistamos no percurso de uma vida? Poucos, pouquíssimos! Os dedos de uma mão podem ser mais do que suficiente para contar as amizades verdadeiras. Claro, podemos contar inúmeros colegas, pessoas mais próximas, etc. Mas amigos de verdade são raros, pois a amizade é restrita às relações especiais, únicas na vida.

Há os amigos da infância, da adolescência. Os caminhos trilhados nem sempre permitem manter tais amizades. É o meu caso: as constantes mudanças de estados, cidades e bairros, me fez perder contato. A distância geográfica, as dificuldades inerentes ao imperativo de viver em novos ambientes nem sempre acolhedores, bem como o pleno envolvimento no cotidiano da nova realidade da vida, etc., talvez expliquem o distanciamento e a perda dos amigos de outrora. As condições de comunicação eram outras, reduzidas basicamente à correspondência física – não havia internet, e-mail, facebook, nem mesmo telefone residencial (imagino que hoje é muito mais fácil manter contato com os amigos distanciados geograficamente). Restaram apenas as recordações, as doces lembranças de uma época.

As vicissitudes da vida separaram-me dos amigos antes mesmo que a amizade criasse raízes mais fortes e produzisse frutos fecundos. Por onde andará o meu amigo do ginasial, como era chamado naquele tempo, íamos ao Angico Club, na festa do caju. Não consigo lembrar o seu nome, mas recordo do seu rosto moreno e do esforço para manter o cabelo à John Travolta. E aquele amigo cuja mãe incorporava Cosme e Damião? Lembro-me do Miguel, amigo de caminhadas pelas ruas do centro da cidade, quando parávamos nas pastelarias e nos deliciávamos sem nos incomodar com a higiene nada acolhedora do ambiente. Outros sábados, íamos ao centro cultural Dário Campos Feijó. Por onde andará o amigo dos tempos de serenata que participávamos na boa companhia do pároco da cidade, nas noites de lua cheia, das andanças pela vida noturna em outras cidades, quando burlávamos as regras da maioridade? E a amiga que estimulou os meus primeiros passos na militância política e por quem inadvertidamente me apaixonei? Onde estarão os amigos do tempo da Pastoral... Por onde andarão os amigos do primeiro grau do antigo Ginásio?

Os amigos estão presentes, seja nas recordações ou nas possibilidades do reencontro. O certo é que uma verdadeira amizade permanece, ainda que o tempo e as condições dificultem ou impossibilitem o encontro físico. O advento da internet permitiu reencontrar alguns, mas o passar dos anos revelou-se desgastante. Tentei resgatar e manter contato, mas as respostas nem sempre foram positivas – e, em alguns casos, prevaleceu o silêncio. Compreendo, não somos mais o que fomos no passado; nos transformamos, somos outros em novas realidades e com novas amizades – ainda que o que vivemos resista em nós, um passado que teima em se fazer presente.
As potencialidades da comunicação via internet não mudaram o que já estava sedimentado. Em outras palavras, as amizades do passado parecem ter parado no tempo – o reencontro via Facebook, por exemplo, não mudou o caráter nem a qualidade das mesmas. A presença dos amigos via virtual não supriu a ausência real. O tempo e a distância geográfica, além daquela construída pela diferença dos caminhos percorridos, produziram efeitos nem sempre positivos. Embora a amizade permaneça, guardada afetuosamente em algum lugar do eu, ela não é vivenciada. Ficaram apenas as recordações, porém significativas.

Embora não tenha conseguido manter uma comunicação mais intensa com os amigos do passado, ainda que tenha reencontrado alguns deles no espaço virtual, tive milhares de “amigos” nos últimos anos. Primeiro foi o Orkut, um dia desativado e, após muita resistência, substituído pelo Facebook. Neste, adotei o critério de utilizar para fins acadêmicos – divulgação das revistas, blogs, artigos, livros, atividades e eventos acadêmico, culturais e políticos. Assumi, então, uma perspectiva crítica e democrática – o que me trouxe dissabores, pois as pessoas partem do princípio de que concordamos com tudo o que publicamos, sem perceberem o objetivo de proporcionar o debate e a reflexão crítica.

No período em que usei este perfil cheguei a ter mais de 4.500 “amigos”. “Ganhei” milhares de “amigos”, mas sem qualquer ilusão quanto ao significado deste fenômeno. De certa forma, tornei-me uma pessoa pública. Mas isto começou a exigir maior dedicação e, consequentemente, mais tempo conectado. Não estou entre os que pensam que o Facebook substitui as amizades reais, ou seja, que o usuário da rede social termina por priorizar a vida virtual aos amigos reais. Na verdade, se isto ocorre – e quando acontece – apenas confirma o isolamento, a solidão.
De fato, o Facebook pode fortalecer laços de amizades existentes, bem como facilitar o desenvolvimento de novos relacionamentos. Por outro lado, o caráter da relação virtual induz a maior espontaneidade, favorece desencontros, atitudes irreflexivas e mesmo abusos. Nem sempre o bom senso e o respeito prevalecem. A virtualidade pode favorecer a petulância e o desrespeito. Indivíduos que nem conhecemos, e provavelmente jamais os conheceremos, consideram-se no direito de exigir explicações, de julgar precipitadamente e determinar vereditos. Felizmente são casos isolados, mas haja paciência!

Comecei a refletir sobre tudo isto, sobre as vantagens e desvantagens de ter um perfil com milhares de “amigos”. Quais os interesses? O que há de comum entre nós? Os amigos pessoais, conhecidos e aqueles com os quais estabeleci uma relação mais intensa, ainda que no âmbito virtual, estavam “perdidos” entre tantos. Então, comecei a ser mais criterioso, mais seletivo. Percebi o trabalho e dificuldade de selecionar os “amigos”. Decidi, então, desativar o perfil. Num simples click perdi milhares de amigos! Como as “amizades” são efêmeras!

Mas não me rendi aos argumentos de um amigo bem próximo, contrário às redes sociais. Para ele, o melhor mesmo é evitar, o quanto possível, navegar pela internet e, especialmente, não ter Facebook. De fato, se refletirmos bem sobre o que deixamos de fazer e o quanto a internet nos ocupa, talvez esse meu amigo tenha razão. No entanto, a internet oferece possibilidades que justificam o tempo utilizado. O importante é ter autodisciplina e saber dosar bem o uso do tempo, sem ficar refém do Facebook nem deixar de fazer outras coisas importantes. Afinal, há vida também fora do Facebook – embora alguns estejam tão envolvidos que parecem ter esquecido a senha!!!

Quantos aos amigos reais, espero reencontrá-los pessoalmente ou mesmo no âmbito virtual. O mais importante, porém, é que os sentimentos de amizade permanecem vivos. Inovações tecnológicas são fundamentais, mas não mudam o essencial! O tempo, a distância e a ausência de contato não suprimiram a amizade. Ainda que ausentes e distantes geograficamente, os amigos permanecem presentes. Apesar das dificuldades, consegui manter contato com alguns deles e não esqueci os que não vejo há anos!


Afora o passado, há o presente, o tempo em que vivemos. Neste, é fundamental as amizades construídas nos últimos anos. Triste do indivíduo que não tem amigos reais, ainda que os dedos das mãos sejam suficientes para contá-los. Para ter milhares de amigos virtuais bastam apenas alguns clicks; para perdê-los também. No entanto, é muito mais complexo ter amizades reais e duradouras! O importante é saber discernir bem os amigos e “amigos”, realidade e virtualidade!

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