sábado, 28 de março de 2015

GOVERNO PRECISA GASTAR EM PROPAGANDA?



Há longínquos cinco anos, escrevi este texto. Não se trata, portanto de um posicionamento oportunista ou recente, mas ele voltou à minha cabeça ontem, quando eu li o documento dos autoproclamados blogueiros progressistas, que tem, no seu item “f”, a seguinte proposta para a “democratização da informação”:

    f) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs. (o grifo NÃO é meu).

Pois é: os blogueiros progressistas querem dinheiro do governo para disseminar a informação pela internet. Muito justo. Afinal, o governo já gasta bilhões em propaganda com a Globo, Record, Folha de SP… Por que não destinar uma merrequinha para os “blogs sujos”, que são verdadeiros Dons Quixotes para levar a informação imparcial, corrigindo as distorções do malvado “PiG” (que, engraçado, também vive à custa do governo)?

Tá bom, chega de ironias bestas. O assunto é: você sabe quanto, onde e como o poder público gasta em propaganda? Fácil responder: muito, no lugar errado e da pior forma. O princípio constitucional da publicidade dos atos de governo é usado como desculpa para verdadeiras farras do boi, enriquecendo agências de propaganda e veículos (pequenos, médios e grandes). O dever de manter a população informada sobre o que o poder público está fazendo por nós foi substituído por peças publicitárias caríssimas que só servem para enaltecer QUEM está governando, muito embora exista também o princípio constitucional da impessoalidade na Administração Pública.

Sim, claro, eles não colocam o nomezinho deles no anúncio, mas, como você bem sabe, a propaganda é a arte de fazer coisas parecerem maiores, melhores e mais bonitas do que realmente são, com o objetivo de fazer o consumidor adquiri-las. E, se há uma coisa na qual não podemos ser ludibriados ou iludidos, esta é a administração do Estado e dos seus recursos. Sim, pois o dinheiro é nosso.

Não somos “consumidores” do governo A ou B, somos PARTE DELE. Portanto, as informações devem chegar a nós de forma clara, objetiva e até CHATA, de tão fria e transparente. Façamos uma analogia: imagine que o síndico do teu prédio resolva “informar” os condôminos não através de maçantes boletins de papel, mas por meio de um programa semanal que entraria nas TVs dos moradores via antena coletiva do prédio; para tanto, ele contrataria uma produtora de vídeo com o dinheiro do condomínio e ficaria lá, todo pimpão, dando uma de “Lula do prédio”. Certamente, seria decapitado na reunião de condomínio em que tivesse apresentado tal sandice, e sua cabeça seria colocada em uma bandeja na porta do apartamento dele.

Não há qualquer sentido em se gastar UM NÍQUEL em propaganda governamental, e desafio qualquer um (exceto os partidos políticos, é claro!) a tentar me convencer do contrário. Os atos de governo devem ser impessoais, transparentes e públicos, e SÓ. Não devem ser bonitos ou feios, grandes ou pequenos, de fulanos ou beltranos. Esses juízos de valor devem ser feitos pelas pessoas, sem qualquer tipo de induzimento por artifícios publicitários.

Não há como lutar por uma imprensa independente e vigilante se esta mesma imprensa vive à custa de quem deveria denunciar. Como eu disse em outro texto, pode procurar UMA nota negativa sobre as Casas Bahia na imprensa, você nunca vai encontrar. Afinal, ela é o maior anunciante privado brasileiro.

Por tudo isso (e muito mais), me parece bastante claro que a blogosfera progressista, em vez de lutar contra esse sorvedouro abjeto de recursos públicos, prefere lutar para garantir seu lugar na festa.

Esta é uma briga muito grande, exige uma mobilização-monstro, mas que eu participaria com o maior prazer. E você, cidadão comum que quer ver o dinheiro público menos mal gasto, não toparia?

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